Minha experiência no ensino descentralizado

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Durante o mês de Novembro, tive a oportunidade de estudar Engenharia de Software no Vale do Silício, em uma escola chamada 42 (www.42.us.org). Sim, apenas “42”. A princípio o nome é estranho mas, é uma referência a famosa obra “Guia do mochileiro das galáxias”, de Douglas Adam, como uma resposta sobre a vida, universo, entre outros. A referência nerd que é feita desde o título já levanta suspeitas de que não se trata de uma escola normal. E de fato não é.

O que é a 42

A escola teve origem em Paris, em 2013, e foi fundada por Xavier Niel, um grande empresário francês na área de telecomunicação. Segundo ele “o sistema não funciona, pois a universidade não atende as demandas do mundo do trabalho, além de não encorajar diferentes talentos”. Um pensamento já debatido e conhecido, mas, até então não tinha sido colocado em prática.

A 42 é uma instituição privada sem fins lucrativos, que oferece ensino gratuito a todos os alunos. Este é financiada pessoalmente pelo bilionário francês Xavier Niel. Hoje, a 42 oferece apenas um curso, o de Engenharia de Software.

Por se tratar de ensino gratuito em uma das área que mais cresce no mercado, é de se esperar que a procura pela instituição seja alta. São cerca de 70 mil candidatos por ano, em que apenas 3 mil são selecionados para a última fase de seleção, a chamada piscine. Outro aspecto que se destaca é a metodologia descentralizada, que é diferente de tudo que conhecemos.

Ensino sem professores nem provas

Alguns já devem ter ouvido falar no termo peer-to-peer, ou P2P. É o conceito de descentralização, que hoje é aplicado por exemplo no Bitcoin ou em downloads de torrent. Isso quer dizer que cada um dos indivíduos detém parte da informação, estes se juntam para que todos tenham acesso a essas informações. Dessa forma, quanto mais pessoas participando da rede mais sólida e confiável ela é.

Aplicado este conceito à educação, a 42 é uma instituição sem professores, horário de aula ou divisão de turma, em que os alunos deixam de ser apenas observadores e tornam-se criadores do próprio conhecimento. Tudo acontece em um grande laboratório sem paredes, que funciona 24 horas por dia em todos os dias do ano, permitindo que os alunos escolham quando irão estudar.

A base curricular é extensa e os alunos participam da sua criação. Essa, permite a atuação em três áreas da computação: programas e sistemas, algoritmos e IA ou gráficos e imagem. O aluno possuem total liberdade para escolher qual (ou quais) áreas deseja se aprofundar, e então, o estudante recebe projetos cada vez mais complexos para completar seu currículo . O tempo de duração do curso também depende unicamente do aluno, porém tem um tempo médio entre 3 a 5 anos.

Não existem trabalhos, atividades de casa ou provas na grade curricular da 42. Os alunos desenvolvem projetos pré definidos pela escola e à medida que entregam, avançam no currículo gamificado, que vai do nível 0 a 21. Existe um conteúdo comum nos primeiros níveis, mas em pouco tempo o aluno vai aprofundando na(s) área (s) que o aluno escolheu.

Minha experiência foi antes de ingressar no curso, na última fase do processo seletivo. Eram cerca de 200 alunos em um curso intensivo de programação, estudando 10 horas por dia durante 4 semanas ininterruptas. Todos os dias recebemos um conjunto de 10 a 20 exercícios na linguagem de programação C, para serem entregues no dia seguinte com 36 horas de prazo. A entrega dos trabalhos era individual mas, era permitido discutir e realizar os exercícios em grupo – o que aconteceu naturalmente.

Dos vários quadros brancos disponíveis pelo laboratório, sempre podia encontrar um grupo de alunos explicando exercícios uns aos outros enquanto desenhavam o raciocínio e desenvolviam os trabalhos. Era uma espécie de sala de aula espontânea, com alguns alunos explicando conceitos e outros discutindo a aplicação e maneiras de otimizar.

Nenhum conteúdo ou referência é fornecido pelo material do exercício, tão pouco pelos funcionários da escola. A opção era recorrer a conteúdos online ou aos colegas. Não ter um professor/orientador no começo é difícil, mas a falta acabou deixando de ter tanta importância e faz desenvolver uma grande habilidade: aprender a aprender.

Parece confuso, mas a 42 utiliza uma metodologia diferenciada e possui prazos apertados, os alunos têm que se acostumar adquirir um grande volume de conhecimento em pouco tempo. Não trata-se apenas conseguir fazer os exercícios, mas também entender o que foi feito, seus conceitos e aplicações , dito que isto tem importância posteriormente.

Ao finalizar as atividades, é definido um horário para correção, tarefa realizada pelos alunos e este é sorteado pelo sistema. Isso faz com que praticamente todos os alunos se conheçam e interajam entre si pelo menos uma vez. São duas ou três correções para cada lista de atividades, e a nota final é a média delas. Na correção, os alunos discutem o que foi feito, esclarecem dúvidas e testam o resultado, o que torna esse momento também muito prazeroso.

Como isso muda o aluno

Além de promover uma maior interação entre os aulos, esse modelo de correção também permite que cópias ou trapaças sejam identificadas, pois a lógica da resposta deve ser explicada, e caso ache a explicação insuficiente o aluno corretor zera a nota da atividade. Ao finalizar a tarefa, o corretor também é avaliado e recebe um feedback. Com isso, todos se esforçam para fazer uma correção aprofundada e ter um bom relacionamento com os outros.

O método de correção é de acordo com a dificuldade, ou seja, você deve acertar o exercício mais fácil para ser pontuado no com maior dificuldade. Isso é justificado pela distribuição das atividades, pois começa com uma tarefa simples, e aumenta gradualmente a complexidade. Um exemplo: criar uma lista, permitir que mais elementos sejam adicionados a ela, classificar em ordem alfabética e mostrar o resultado.

Cada passo deste é um exercício que precisa do anterior para ser feito. Caso o aluno falhe em um exercício, isso mostra que, teoricamente a pessoa não possui conhecimento suficiente para realizar os outros exercícios . Para reforçar o aprendizado, as atividades e conceitos se repetem ao longo do curso, permitindo que o aluno mostre possui conhecimento sobre o assunto .

O ensino descentralizado exige muito mais do aluno, pois além de ter a dificuldade de conteúdo do tradicional, o estudante deve ter maior autocontrole, pois não existe horário ou matéria certa para estudar. Já dizia o Tio Ben “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. E muitos tem dificuldade em lidar com as responsabilidades, principalmente porque não são cobradas diretamente.

Aplicando a ideia em outros campos

Muitos dizem que isso é o futuro, e eu concordo. Comparado com o ensino tradicional, o peer-to-peer empodera o aluno, faz com que ele se esforce para aprender e constrói um conhecimento mais sólido e fundamentado. Além disso, a necessidade de se adaptar a diferentes situações e interagir com os demais desenvolve habilidades importantes para o mercado de trabalho.

Isso tudo sem comprometer aqueles que gostam da figura do professor, alguém que esclarece dúvidas e possui conhecimento sobre o assunto. Isto é substituído por algum outro aluno ou até mentor, que auxilia os demais sem ter um status de autoridade ou detentor de conhecimento.

Existem ainda alguns empecilhos na aplicação em larga escala dessa metodologia. A área de computação e engenharia talvez seja o ambiente mais fácil de disseminar. Já cursos teóricos precisarão adaptar a metodologia.

Outro ponto é a maturidade do aluno, que migra de um sistema completamente fechado e cheio de regras para um sem praticamente nenhuma restrição. Muitos não conseguem controlar e não se dedicam o suficiente ou acabam se frustrando e tem dificuldade de readaptar.

Ao longo da minha experiência na 42 eu vi parte dos estudantes desistiram, por não se identificarem com a área de computação ou por não se adequarem à metodologia. Pessoalmente, foi uma experiência muito enriquecedora e que me trouxe um conhecimento prático valioso, que vou levar para a vida toda.

Decidi compartilhar isso para incentivar escolas, startups e outras iniciativas de educação que acreditam em outras maneiras de ensinar. Mostrar que é possível mudar o sistema, enquanto reduz os custos e se torna referência mundial em educação.

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